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A GRéCIA ENTRE O DRAMA E A TRAGéDIA
Por Nicolas Tingas, Jorge C.Kapotas e Francisco Petros, artigo resultante do debate "RECUPERAÇÃO OU RUPTURA? – A crise grega e a turbulência financeira no Velho Continente"
 
A crise da Grécia não é um fato isolado. Certamente, a situação grega demanda urgente mudança do modelo social e econômico do país; vítima de seus próprios erros, da baixa produtividade e de amplas ineficiências. Entretanto, não há "ator grego" isolado no contexto das sucessivas crises financeiras dos anos recentes. A crise da Grécia e da própria proposta do EURO evidencia, assim como a crise do "sub-prime" (2008), que as crises são partes de um contexto maior – o da crise financeira global.
 
Impõe-se uma crise de solvência que nos últimos cinco anos, segundo relatório do FMI ("Global Financial Stability Report". IMF, September 2011) tem sido derivada por uma cadeia crescente de risco: crise da dívida privada- crise bancária sistêmica- crise de dívida soberana- crise política e, como nefasta resultante, a incapacidade de criar consenso para severas mudanças e ajuste fiscal. A busca pela superação das crises globais tem focado em severos ajustes fiscais e econômicos, mas isso tem afetado de forma crescente uma enorme parcela da população, que tem verificado enorme "destruição de riqueza" pessoal e familiar.
 
Mais especificamente, a crise econômica que hoje assola as famílias, empresas e o estado grego, tem as suas raízes nos acentuados desequilíbrios estruturais que se desenvolveram ao longo das últimas décadas. Vale lembrar, que durante as décadas de 50, 60 e 70 a economia grega cresceu a uma taxa média anual de 6,5%, ao mesmo tempo em que manteve uma política fiscal equilibrada, altas taxas de formação bruta de capital e um déficit comercial amplamente financiado por investimentos diretos e transferências internacionais. Este "milagre" econômico grego se contrapõe diretamente à forma do desenvolvimento econômico das décadas mais recentes nos quais a economia helênica apresentou taxas anuais pífias de crescimento econômico.
 
Nos anos 80, 90 e 00 o estado grego passa a acumular anualmente grandes déficits nominais, em média equivalentes a 7,4% do PIB, pressionando fortemente a dívida pública, que decola dos 26% do PIB, nos anos 70, aos 160% do PIB em Dezembro de 2011. No âmbito externo a situação também se agrava, na medida em que os saldos comerciais negativos anuais, a partir do ano 2000, passam a ser financiados quase que exclusivamente por aumentos dos empréstimos líquidos externos. Ademais, os desequilíbrios fiscais provenientes de rubricas de custeio e benefícios sociais do estado grego - o qual emprega um de cada quatro gregos economicamente ativos - promoveu um aumento significativo do consumo, via salários e benefícios. Ao mesmo tempo, a incapacidade do Estado em investir e fomentar o investimento, conjugada com a crescente oferta de bens, produtos e serviços por parte dos parceiros industrializados da zona do euro, promove uma redução acentuada da taxa de formação bruta de capital (investimentos no aumento da capacidade produtiva). Em outras palavras, além de gastar muito além das suas receitas, o Estado grego, imprime uma política fiscal totalmente inadequada ao crescimento econômico sustentável de longo prazo, e com consequências igualmente nefastas à população, às empresas e credores internacionais. Este processo descreve a dinâmica econômica viciosa no longo prazo e com fundações estruturais moldadas ao longo de três décadas. Neste sentido, qualquer proposta de saída deste cenário de grave impasse econômico, implica em quebras de paradigmas e mecanismos estruturais históricos, que vão muito além de pacotes de ajuda euro-patrocinados e reestruturações voluntárias da dívida pública do país.
 
Nossas projeções mostram que é muito improvável que mesmo depois da aprovação recente do pacote de 130 bilhões de euros que tem o objetivo de prover liquidez ao longo dos próximos anos para o serviço da dívida soberana grega que o país seja capaz de fugir do atual cenário desolador em que se encontra. Seria necessário um vigoroso crescimento do PIB, algo em torno de 6% ao ano, motivado por uma drástica (e improvável) mudança na produtividade econômica, para que o Estado helênico retornasse a patamares críveis de solvência. Neste sentido, a Grécia se assemelha ao cenário latino-americano dos anos 80 e 90 com o agravante de que não há a opção da desvalorização cambial que permita o barateamento o segmento de bens não-comercializáveis (non tradeables) que aumentem a competitividade externa.
 
A probabilidade de que o país saia das amarras da moeda única europeia permanecerá elevada pelos próximos anos, sendo que a Grécia estará, neste processo, em companhia de Portugal e Irlanda, pelo menos e, talvez, a Espanha. Neste cenário, acreditamos ser improvável que a Alemanha e França voltem a empenhar suporte econômico e político para estabilizar a economia grega.
 
A Europa tem uma unificação ainda incipiente; é uma "zona monetária não-otimizada", sem unificação fiscal e deficiência em seus fundamentos econômicos. Na prática, há outros fatores que representam severo obstáculo para sua evolução econômica no contexto do capitalismo global. Alguns deles são as diferentes características e assimetrias de produtividade entre a "Europa do Norte" e "Europa do Sul", o histórico de guerras, as diferentes raças e as múltiplas religiões. Também, há enorme dificuldade de harmonizar o comportamento cultural e social dos povos dos vários países europeus; devido às profundas raízes e valores históricos de cada povo. Tudo isso, muito diferentemente do pragmatismo americano de um povo único que ataca a crise do "subprime" de forma mais objetiva e rápida; na Europa, a multiplicidade de atores locais torna os processos de superação de crises mais lentos, assimétricos e complexos. Neste sentido, a tragédia grega é apenas uma peça a mais no teatro do Velho Continente.
Nicola Tingas é economista-chefe da ACREFI e conselheiro do Centro de Estudos Helênicos Aretê. Foi economista-chefe da FEBRABAN e economista sênior para América Latina (Argentina, Brasil, Colômbia e Peru) do Banco WestLB.
Jorge C. Kapotas é CEO da Octaplus Financial Analytics e conselheiro do Centro de Estudos Helênicos Aretê.
Francisco Petros é economista, Presidente do Conselho de Supervisão dos Analista do Mercado de Capitais da APIMEC e conselheiro do Centro de Estudos Helênicos Aretê.

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