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PANORAMA DA POESIA GREGA MODERNA - POR STéLIOS HOURMOUZIADIS
 
Poeta e Consul Geral da Grécia em São Paulo, Stélios Hourmouziadis proferiu a palestra no Café Literário da Areté, em 2 de setembro de 2018.
 
 
 
Esta é minha primeira apresentação em público e, é com muito prazer que tenha lugar no Centro de Estudos Helênicos «Areté», para um público tão caloroso e interessado em conhecer aquilo que guardo no fundo do meu coração: a poesia grega moderna. Tentarei ser o mais breve possível (sempre quando alguém fala isso, pode ficar inquieto quanto à duração da palestra!!!) para não cansá-los, mas também pela impossibilidade de discorrer sobre este assunto em tão pouco tempo. Perdoem-me pelas eventuais faltas que cometerei. Minha intenção é dar uma primeira “pincelada” sobre as maiores correntes e os poetas gregos mais importantes do séc. XX, mas meu desejo ainda maior é trazer o entendimento dos textos mais perto de vocês, por meio das traduções que temos disponíveis até os dias de hoje. Nossa querida Débora, primeiramente, mas eu também, na medida do possível, na segunda parte desta apresentação, faremos um relato sobre os desafios da tradução entre o grego e o português, ainda mais na poesia. Espero que no futuro possa haver um maior volume de traduções feitas em São Paulo durante o período em que aqui residirei.
 
Minha Grécia, ou melhor dizendo, a nossa Grécia, se me permitem, é um lugar único e não digo isso apenas na qualidade de Cônsul Geral, não me entendam mal.  A Grécia é um país fértil, mesmo não tendo tantos campos. É um lugar que sempre promoveu a intercomunicação, ainda que rodeado de mar e de montanhas de difícil acesso. É um lugar de exploração, de aventura e de viagem, mas que ao mesmo tempo revelou ao mundo a noção do Nostos (vj. a palavra nostalgia), da doce mas muitas vezes tortuosa espera pelo retorno dos entes queridos ao lar, à pátria, ao local que o grego voluntariamente deixa para trás.... Nossa Grécia que gerou grandes ideais, berço da civilização ocidental, como todos sabemos hoje, é acima de tudo uma poetisa. O florescimento da poesia desde a antiguidade – épica, lírica, teatro em versos, pode estar, para muitos, associada à própria idiossincrasia linguística do grego antigo. Fato é que na época de Homero, de Safo, de Píndaro e dos grandes trágicos até os dias de hoje, os gregos cantam a poesia (gostaria de lembrar das “mantinadas” cretenses). Enquanto a literatura grega antiga, incluindo a poesia, é amplamente difundida e conhecida, tendo sido objeto exaustivo de estudos pelo mundo e pelas excelentes universidades de nossa cidade, a poesia grega moderna do século XX e XXI é quase desconhecida ainda que para o estudioso do grego. Tentarei apresentar a vocês um panorama mais consistente possível desde o início do sec. XX até aproximadamente o final da década de 1960.
 
Nossa história poética começa com a grande figura das letras gregas, Kostis Palamas (1859-1943), um intelectual que rompeu com a tradição romântica da poesia grega no final do sec. XIX e viveu períodos de grande ascensão e de declínio nacional. É considerado um dos introdutores do Parnasianismo e do Simbolismo na poesia grega e a maior personagem da chamada “Nova Escola de Atenas”. Em sua obra, que para muitos se compara com a obra de D. Solomos, impera o dualismo, a oscilação entre pares contraditórios: a ação intensa e a vida medíocre, a negação e a tese, a lealdade e a traição. Até o seu lirismo característico se distingue em dois pares: o lirismo do “eu” (idealização do valor da privacidade) e o lirismo do “nós” (discurso da poesia épica dos grandes anseios). Suas maiores obras são Iambos e Anapestos (1897), A sepultura (1898), A vida imóvel  (1904) – início da nossa narração -, O dodecálogo do cigano. Do dodecálogo ouviremos uma tradução feita por José Paulo Paes - (pp. 35-36).
 
No mesmo período de Palamas, temos o grande destaque da poesia grega e uma das figuras mais importantes da poesia europeia do sec. XX, Konstantinos P. Kaváfis (1863-1933). O grande poeta de Alexandria, cosmopolita, distante da Grécia metropolita e, em grande parte, de seus feitos literários, com uma rica diversidade linguística e com temáticas extremamente pessoais e originais constitui, em minha humilde opinião, o primeiro “Nobel” da poesia grega (apesar de nunca ter sido indicado para o prêmio). O “estado kavafiano” é formado pela melancolia ultrarromântica (no sentido duma melancolia que ultrapassa o literalmente romântico), pela glorificação da arte, pelo elemento histórico-mitológico (tendo como fonte de inspiração os tempos helenísticos), pela bipolarização entre homens e deuses, com ênfase na dignidade e no orgulho humanos. Sua poesia se destaca pelo aspecto lírico, pela ironia, pela conscientização da sua essência dramática da vida.  A linguagem e a forma poética de seus poemas também têm um caráter particular e inovador para a época. Suas principais características são:   
 
-Linguagem particular, mistura de “koiné” com “dimotiké”, com elementos idiossincráticos de Istambul
- Discurso simples com pouquíssimos adjetivos (os que existem tem uma conotação importante, não são nunca convencionais ou decorativos)
- Linguagem neutra, quase prosa, distante das convenções poéticas da época. A linguagem não revela os sentimentos.
- Poemas extremamente curtos.
- Ritmo iâmbico, mas tão elaborado que é difícil distingui-lo
- A rima não aparece em todos os poemas, às vezes é circunstancial e não tão rígida
- A pontuação tem um importante papel para atribuir o sentido (p. ex. ironia) ou funciona como condutor de recitação (ex. tom de voz mais baixo nos parênteses).
 
O próprio Kaváfis dizia que seus poemas se classificavam em três categorias: os filosóficos, os históricos e os hedônicos (sensuais). Sua obra abrange 154 poemas (os reconhecidos), 37 descartados, os ocultos (foram encontrados 75 poemas escritos no papel, mas que não foram editados) e 30 incompletos.
 
Desfrutemos um pouco deste poeta de Alexandria, em grego e em português por Ines e Jose.
 
 
Neste mesmo período temos um grande poeta, Angelos Sikelianos (1884-1951) o visionário do resgate das Festas Délficas, amante da Grécia, cristão fiel. A principal temática filosófica-poética de Sikelianos é a crença na unidade do todo (“alma total do Mundo”) e a coincidência da “alma sensitiva” ou seja do poeta, com o centro do todo. Ele tentou evidenciar um mito universal religioso com base na tradição arcaica grega, no cristianismo e no ensino órfico. Os principais temas de suas poesias são a morte e a paixão vivificante. Suas obras mais relevantes são O vidente (uma grande composição lírica, uma espécie de autobiografia da adolescência do poeta), o Prólogo à Vida, a Mãe de Deus, Páscoa dos Gregos etc (leitura de Sikelianos).
 
Nosso passeio pela poesia grega do início do sec. XX continua com Kostas Varnalis (1884-1974). É contemporâneo de Sikelianos e do grandiosíssimo Kazantzakis, do qual não falarei nesta apresentação. As principais características de sua poesia são o lirismo, o espírito satírico, a negação intensa, a criatividade rica e um profundo senso musical. Sofreu influencias do materialismo dialético e da ideologia marxista, com a qual teve contato em Paris. De sua obra destacam-se duas grandes composições poéticasA luz ardente e Os escravos assediados (claro contraponto com Os livres assediados de Solomos) (leitura)   
 
Passando pelo início do sec. XX e, antes de chegarmos à aclamada geração de 1930, vale a pena lembrar de dois grandes poetas gregos, influenciados pela poesia francesa, cuja obra foi traduzida: Kostas Ouranis (1890-1953) e, sem dúvida, mais importante e mais trágico Kostas Karyotakis (1896-1928). Ouranis busca nas viagens e na fuga, a salvação do tédio do cotidiano e da traição. Sua principal obra é a Coletânea Nostalgias (leitura). Karyotakis, por outro lado, apesar de sua vida breve, causada por suicídio, deixou sua forte marca na geração conhecida de 1920. Considerado o principal representante da poesia decadentista com suas coletâneas A dor do homem e das coisas, Nepente, Elegias e Sátiras deixa uma obra poética de peso, onde se denota uma excessiva paixão pela vida, um senso de realidade pleno mas ao mesmo tempo o senso da vaidade e da perda (leitura).  
 
Assim, chegamos à mais importante Escola da Poesia grega moderna, sem sombra de dúvida, a chamada geração de 30, época em que surge um movimento e uma produção poética muito fortes em vários outros países europeus. Na Grécia, neste período, despontam dois prêmios Nobel  de Literatura (Seferis em 1963 e Elytis em 1979) e ainda poetas de grande calibre como Ritsos e Vrettakos. Ao mesmo tempo na Grécia surge o Surrealismo, graças ao Empeirikos e ao Eggonopoulos.
 
Giorgos Seferiadiscomo era o verdadeiro sobrenome de Seferis (1900-1971) proveniente da Ásia Menor, era diplomata e poeta, tradutor e escritor (qualquer semelhança com este que vos fala, torçam para que eu tenha o mesmo êxito dele – kkkkkkkkk). Sua primeira e mais importante coletânea poética Estrofe marca realmente uma virada, uma profunda mudança no discurso poético grego:  Seferis rompe o ambiente decadente da geração de Karyotakis e cria uma poesia robusta, dórica, com expressão arrojada e com novas imagens, mais leves e frescas.  Suas coletâneas seguintes seguem com um estilo claramente pessoal, passando dos versos de quinze sílabas com rimas (grande poema com título Discurso Erótico), para o verso livre Cisterna, História mítica, Caderno de exercícios, Diário de bordo A-B-C, Três poemas místicos. O estilo e a linguagem de Seferis não são sempre de fácil compreensão, apesar do estilo dórico. Muitas vezes é hermético e austero, principalmente em sua fase final. Profundamente grego, apresenta nossa cultura de maneira integral sem proeminências, mas consciente do peso e da responsabilidade do Grego face ao homem e sua nação. Sua marca mais preponderante talvez seja a sua escrita clara, provocando no leitor a conscientização de que apenas desta maneira as coisas poderiam ser ditas. Seferis parece frequentemente pessimista e melancólico, mas tem sempre o senso de responsabilidade e uma disposição de desviar da destruição. (leituras)
 
Na mesma época  em que circula História mítica de Seferis, surge no cenário da poesia grega moderna o Alto forno de Andreas Empeirikos (1901-1975), incompreensível para muitos, que introduz na Grécia o surrealismo: escrita automática, subconsciente, imagens ricas, uma nova sensação ultra realista.  Ressurge muitas vezes, principalmente em sua segunda coletânea, Interior com versos mais maduros, mais compreensíveis, sem a escrita automática, mas com muitos elementos psicanalíticos e uma intensa sensação de liberdade. (leitura). Outro poeta adepto do surrealismo radical foi Nikos Eggonopoulos (1907-1985), pintor e poeta, idiossincrático, surrealista ao extremo, com uma linguagem rica em elementos cultos. Suas principais obras são Não fale com o motorista, Os pianos do silêncio e Bolivar-um poema grego (leitura).
 
E como se não bastassem estes grandes nomes da poesia, em 1935 surge um outro poeta colossal no cenário da poesia grega moderna, ele que também possui um pseudônimo, assim como Seferis: Odysseas Alepoudelis, mais conhecido como Elytis (1911-1996), o poeta que exaltou a luz da Grécia e o mar como ventre materno dos gregos. Sua poesia desde suas primeiras aparições foi consagrada como luminosa, otimista, pueril tendo como plano central o Egeu. Estes elementos são evidentes nas coletâneas Orientações, Sol primeiro. Em seguida em Canto heróico e funeral para o segundo-tenente desaparecido na campanha da Albânia, Elytis exibe todas as suas virtudes poéticas: pureza da palavra, atrevimento e vibração da expressão, estrutura perfeita. Na sequência surgem Seis e um remorsos para o céu e o grande poema “To Axion Esti”, de difícil compreensão e avaliação, mas grandioso. Trata-se de uma obra construída em três partes, onde a experiência pessoal conecta-se com a experiência histórica nacional dos gregos. É uma epopéia lírica, um hino e um elo profundamente enraizado entre o poeta e a sua pátria. Elytis faz uma renovação na linguagem utilizando-se amplamente do arsenal existente desde Homero até Solomos, incorporando-a ao “Axion Esti” juntamente com elementos da rica tradição linguística ortodoxa grega. De sua obra destaco ainda: Sol o grande Sol, Monograma, Maria Neféli, O pequeno náutilo (leituras).
 
Contemporâneos de Elytis, prolíficos e com uma trajetória bastante semelhante são os grandes poetas de ideologia declaradamente esquerdista da geração de 30, Nikiforos Vrettakos (1912-1991) e Giannis Ritsos (1909-1990).
 
Vrettakos, autor de uma obra numerosa, influenciado por Karyotakis, mas com um lirismo sincero e dramático, tem como principais obras o Baixo das sombras e das luzes e Caretas do homem, avançando para sua fase mais madura com temáticas como amor ao próximo, contribuindo para uma inquietude moral e social e, abordando conceitos como luz, natureza, amor, pureza. Na fase final de sua vida exprime o amor por uma vida mais simples e humana e, convida seu leitor a um despertar permanente, otimista e revolucionário. Foi indicado quatro vezes ao prêmio Nobel de Literatura (leitura).      
 
Ritsosproduziu uma obra literária enorme desde sua juventude até os últimos anos de sua vida, recebeu vários prêmios dentro e fora da Grécia, e permanece até hoje um dos principais poetas do nosso país. Apresenta uma locução poética nítida, uma exatidão expressiva, uma sensibilidade social e, muitas vezes, um espírito revolucionário. É um poeta de grande expressão tanto em relação aos seus poemas muito longos quanto à criação de imagens, tendo como fonte de inspiração muitas vezes sua infância e adolescência. Sua vasta liricidade muitas vezes é considerada como um aspecto negativo de sua poesia. No final de sua vida começa a escrever poemas mais curtos e condensados. Suas principais obras são: Trator, Pirâmides, O estrangeiro, Epitáfio, Sinfonia da primavera, Sonata ao luar entre outros (leitura).
 
Chegando ao fim da geração de 30 encontramos Nikos Gkatsos (1911-1992) trazendo um nova proposta de surrealismo na poesia com seu poema único e bastante longo Amorgos que veio a influenciar mais tarde outros poetas . Outro poeta de grande êxito foi Nikos Kavvadias (1910-1975)  que se tornou muito conhecido e amado pela sua coletânea Marabu que aborda a temática das viagens reais mas também as idealizadas e alegóricas. Estes poemas serão musicados mais tarde (leitura).
 
A poesia do período pós-guerra, ou seja após a 2ª. Guerra Mundial, surge na Grécia de forma intensamente variada. No entanto se caracteriza por uma unidade poética, com temáticas específicas, com uma seriedade trágica sem ilusões e expectativas, muitas vezes com um tom de pessimismo. Uma poesia da “essência” como ficou conhecida, uma poesia que se utiliza da literalidade e dοprosaísmo para descrever as coisas com exatidão.   
Uma outra característica deste período é uma forte politização e seu caráter social, principalmente na Grécia, como consequência da guerra civil, mas também por influência dos movimentos político-ideológicos no mundo (Maio de 1968, Vietnam etc)   -   Alguns dos poetas mais conhecidos desta corrente são: Manolis Anagnostakis, Aris Alexandrou, Tasos Leivaditis, Michalis Katsaros, Titos Patrikios (leitura).  A poesia desta época é também “existencial”, e expressa a angústia do homem moderno, do pós-guerra, por vezes trazendo questões de natureza metafísica. Neste subgrupo da poesia grega pós guerra encontramos Minas Dimakis, Miltos Sachtouris, Eleni Vakalo, o grupo de poetas de Tessalônica, Giorgos Themelis, Zoi Karelli e Ntino Christianopoulos (com ênfase no aspecto privado, bastante realista em suas descrições, erótico) bem como a incomparável Kiki Dimoula (leitura). Ainda neste período e até a década de 1970 temos um grupo de novos poetas que poderiam ser chamados de “neossurrealistas”.   Neste grupo temos Nasos Valaoritis (leitura) e Ektoras Kaknavatos  entre outros.
 
E aqui termino minha apresentação, na esperança de não tê-los aborrecido muito. O período posterior, ou seja, o que marca a ditadura na Grécia (1967), a poesia nos tempos dοpós-conflito (Geração de 1970), a geração de 1980 e a poesia grega moderna terão que aguardar uma  próxima apresentação, talvez de alguém que seja mais especializado neste assunto do que eu. Se não houver, prometo que tentarei.
 
 

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